AS IMAGENS E O ATO

Texto da curadora e psicanalista Tania Rivera. Destaco a frase: “Maurice Merleau-Ponty já afirmava em 1948, o cinema deveria se pautar não por regras ou receitas, mas pelo que um filme é capaz de gravar em nosso espírito: “uma imagem radiante, um ritmo”.

ReneClair-Entracte2

Ato, atalho e vento é uma bela homenagem ao cinema e uma surpreendente reflexão sobre o que é o cinema – e o mundo. Ele traz, em uma montagem muito pessoal do diretor Marcelo Masagão, breves instantes de 143 filmes – em sua maioria, clássicos de diretores como Fellini, Antonioni e Bergman, Hitchcock, Kiarostami e Kar-Wai, entre muitos outros. A inusitada estrutura surpreende pela capacidade de manter nosso olhar fascinado por suas imagens, tomado em seu ritmo oscilante e primorosamente pontuado pela trilha sonora de Eduardo Queiroz, Felipe Alexandre, Guilherme Rios e Wilson Sukorski

Esse filme nos lança, em ato, a pura poesia do cinema, que de hábito permanece confinada aos curtos momentos felizes nos quais, em meio à narrativa de qualquer filme (sua prosa), pode irromper uma imagem vigorosa, uma imagem verdadeira. Seja ela construída ficcionalmente ou apresentada como captação do real, é difícil apreender de onde vem sua força de verdade – apenas o olhar de cada espectador poderá conferi-la, de modo singular e imprevisível. Ela consiste em uma espécie de ligação íntima do cinema com cada um de nós, algo de invisível e externo à própria obra, mas que me parece ser um dos fundamentos do cinema. O desafio do diretor de Ato, atalho e vento é isolar tal fator e torná-lo presente como ato – ou atalho – cinematográfico, lançando-o ao vento, nas telas, diante de nós.

Com seu novo filme, Masagão – conhecido especialmente por seu Nós que aqui estamos por vós esperamos (1999), um marco no documentário nacional – supera definitivamente a tradicional distinção entre filme de ficção e documentário. Ao se apropriar de fragmentos de filmes de ficção, em sua grande maioria, ele neles aponta um vigor documental – não apenas da história do cinema, mas da História e, ao lado dela, de nossa(s) história(s). Mas Ato, atalho e vento não se encaixa nos moldes do documentário. Neste filme pulsa, estranhamente, a ficção em sua maior potência, aquela que não coincide com a narrativa a sustentar e organizar as imagens de um filme, mas consiste em um germe que parte do filme, de modo plural, para atingir o que está fora dele – no mundo e em cada um de nós.

“Não corra atrás da poesia”, dizia Robert Bresson a respeito da montagem cinematográfica, “ela penetra sozinha, pelas junções”. Mas importante do que as imagens nelas mesmas é o entreimagens, a brecha, o instante quase invisível de escuridão que ilumina e confere outra espessura às imagens cinematográficas. Ao assumir o corte por ele mesmo, isolado de qualquer narrativa dramática ou construção cênica, o filme de Masagão comprova e explicita essa estranha potência do intervalo – fresta na qual posso me inscrever de modo singular, tornando-me um eu-cinema.

***

Ato, atalho e vento nos convida, inicialmente, a um jogo de reconhecimento e redescoberta de fragmentos de obras que um dia vimos. Mas em seguida, em um estranho reviramento, reconhecemos instantes a que talvez nunca tenhamos assistido, e no entanto surgem como lembranças, como cenas alheias, enxertadas em nossa própria memória. Fragmentos de que nos apropriamos, como a jogar com as peças de um quebra-cabeças infinito no qual pulsariam, misturadas, todas as cenas de todos os filmes já realizados.

Esse jogo da memória inclui também, fundamentalmente, o esquecimento. Esquecemo-nos da maior parte desse infinito amálgama de imagens. Além disso, há nele cenas ou fragmentos de cena que nem sempre podemos evocar intencionalmente, mas que nos habitam em uma zona de imemória, para usar o termo de Chris Marker, ou de recalcamento, se preferirmos falar como Freud. Imagens latentes. Imagens estranhas, porém familiares. Imagens coletivas, mas que se tornam íntimas. A lógica de Ato, atalho e vento é, segundo o diretor, aquela do “mesmo diferente” e da pluralidade de pontos de vista – de cada diretor, de cada cena, de cada filme. Todo encontro é um confronto entre diferentes unidades de tempo e espaço.

Se o cinema é memória, ele não se limita à lógica do arquivamento particular de imagens, histórias e fatos. Ele é construção coletiva da História em maiúsculas, da História da Civilização. Zona de indefinição entre eu e a Cultura, terreno de conflito entre o que vem do outro (diferente) e deve tornar-se meu (mesmo): o cinema talvez seja um dos lugares privilegiados do “mal-estar na civilização” de que falava Freud no conhecido texto que leva este título, e cuja leitura incitou Masagão a conceber a complexa estrutura conceitual de Ato, atalho e vento.

O filme talvez nos ensine que o cinema não é apenas um entre outros campos da cultura, mas sim uma apresentação em ato do trabalho de cultura. Ação de inscrever o mundo em imagens visuais e sonoras a serem compartilhadas e, em retorno, ato de transformar imagens em acontecimentos da vida. Ato de construir cultura e de se constituir como sujeito, na Cultura, de modo conflituoso e não sem sofrimento. Ato de assumir, nessa complexa montagem, que “as coisas não saíram como havíamos planejado” – como afirma a sinopse de Ato, atalho e vento, que o sustenta como “filme-frase” ou “filme de uma só frase”, nas palavras do diretor.

Como o filósofo Maurice Merleau-Ponty já afirmava em 1948, o cinema deveria se pautar não por regras ou receitas, mas pelo que um filme é capaz de gravar em nosso espírito: “uma imagem radiante, um ritmo”. O filme mais recente de Marcelo Masagão ousa materializar, do início ao fim, tal arriscada e bela proposta.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s