ENTRE FRAGMENTOS

ReneClair-Entracte

Por Ana Costa

Em seu mais recente filme Ato, atalho e vento, Marcelo Masagão convida o espectador a acompanhá-lo num desafio: como construir uma narrativa a partir de fragmentos de 143 filmes, cujo excesso faz perder qualquer referência que permita uma continuidade? E mais: como tomá-los enquanto fragmentos, destituídos das referências originárias, sem que cenas, tão repassadas e conhecidas ao longo da história do cinema, façam com que o espectador volte a “colá-las” enquanto assiste, lembrando do sentido que tinham em seus filmes prediletos? Esse duplo desafio não é qualquer e Masagão o encara partindo de um texto: o Mal estar na civilização, de Sigmund Freud.

Será que essa colocação do diretor levaria a pensar que o roteiro é freudiano? Não é tão simples, assim como não é simples o desafio em que me encontro, de produzir uma resenha de um filme cujo significado se estilhaça constantemente. Talvez minha práxis de psicanalista me ajudasse, pois a reunião dos fragmentos se compõe de princípios associativos, usuais na clínica psicanalítica, em que metonímia e contiguidade compõem movimento, que insiste como repetição, e o corte, a edição, ressignifica – a posteriori – esse movimento. Sim, posso dizer isso como uma apresentação de entrada. Mas também não me diz muita coisa e o ponto que quero ressaltar é bem outro: a dimensão poética que captura no desenrolar das cenas.

O filme é envolvente desde seu início, propondo que embarquemos nas viagens que interpretaram/construíram nosso imaginário a partir do cinema – desde a ontológica E la nave va, passando por Um bonde chamado desejo e muitos outros. Escolherei não indicar os filmes usados (o que me traria um trabalho impossível) até mesmo porque eles se tornam outra coisa na edição deste outro filme. As sequências incidem na associação das cenas pelos objetos: o navio, o bonde, o trem, o avião, o carro, o avião de papel, a maçã rolando, a bolinha girando… O filme vai se apoiando na literalidade metonímica, ou mesmo no objeto/letra que escreve nossas viagens, que se constituem basicamente na produção de um olhar. São imagens que evocam, mas cuja contiguidade associativa de cenas de muitos filmes produz rupturas na evocação. A memória de cada fragmento lança-nos imediatamente na tentativa de reconstruir a narrativa do primeiro filme evocado, mas a sucessão de imagens provoca uma sensação de mise-en-abîme, e essa primeira unidade imaginária buscada se rompe. Mas na ruptura temos o lindo arranjo musical sob a direção de Eduardo Queiroz, que parece ter entrado no espírito do filme, e que permite os enlaces, acompanhando-nos até o final.

Do que trata o filme? Aqui penso que está a referência a Freud: é sobre o mal estar. Sim, mas tratado ludicamente. O gap, a descontinuidade, a não relação, o que cai, o que não dá certo, o desencontro, a censura na iniciação ao sexo, o pesadelo, o duplo, a relação com a morte e o morto, tudo isso é evocado no desdobrar das imagens, pertencentes a inúmeros filmes de variadas épocas. E quando elas crescem em tensão, na sua sucessão de repetição temática em diferentes planos, uma cena derrisória faz rir e relaxar. Como não se trata de um filme que desenvolve uma história, mas sim uma poética, o expectador certamente guardará a preferência por alguns dos arranjos de fragmentos. Destacarei alguns – entre os tantos de que gostei. No primeiro, os garotos sofrendo o temor ligado a suas práticas masturbatórias – são imagens intensas – que desembocam na sequência dos jovens no barbeiro, raspando a cabeça, em que reconhecemos a submissão a uma perda – nos cabelos caindo – como num ritual de passagem. No meio dessa série, é intercalada a cena derrisória do barbeiro fazendo as vezes de clown, dançando e hipnotizando o menino para que se deixe estar na cadeira.

A outra série que destaco são mãos femininas deslizando, em que diferenciamos erotismo, enigma, dramaticidade: a mão que se fere, deslizando na rugosidade da parede, chega a produzir dor em quem assiste e logo é cortada pela imagem de um adolescente que faz o mesmo movimento, mas com um giz que risca a parede. Enfim, são cenas marcantes, que poderíamos remeter a seus filmes de origem, mas que funcionam nessa sincronia, em que esquecemos sua heterogeneidade de autoria, época e temática originária. Assim, não cabe aqui remetê-las a esse primário de que teriam surgido. Poderia continuar destacando a poética das passagens, tais como a série que desdobra o desencontro entre casais, ou mesmo a sequência de imagens de mulheres desviando o olhar. São forças associativas que carregam o pensamento.

Como última questão, situo o texto de apresentação inicial, em que Masagão diz que fazer um filme de fragmentos é promover um encontro, pelo desejo de ver o que ocorre ENTRE as coisas. Esse tema do “entre” remete ao gap que mencionei antes. Buscamos, na construção do imaginário que nos sustenta, o encobrimento de nossas descontinuidades. Recobrimento, este, sempre precário, a se manifestar em nossas crises narcísicas, na emergência de estranhamentos, de fenômenos do duplo – temas que são recortados no filme. Também buscamos transpor esses gaps nos encontros amorosos, que sempre trazem uma medida de desencontro, porque não solucionam o inacabamento constituinte do humano. Essa heterogeneidade do “entre” me remete a um poema de Antoine Tudal, algumas vezes mencionado por Lacan, em que diz, numa de suas passagens: “Entre o homem e a mulher há um muro”. Algumas vezes Lacan o usou para situar o “muro da linguagem”, na medida em que, ao mesmo tempo em que a linguagem une, ela também separa. Desnaturados por nossa forma de linguagem, perdidos de um ciclo da natureza da qual nos desgarramos, ficamos exilados nesse “entre”, condição em que veneno e remédio vêm de um mesmo elemento. É na linguagem que se inscreve nossa dependência do outro, dela fazemos veiculo de nosso pedido de amor. Mas é também dela que resulta o desencontro no mal entendido, na injúria e na violência, os venenos de nossa civilização. A sequência final do filme traz o despertar de pesadelos – cenas angustiantes – até o reencontro com o que temos de propriamente humano: a escrita, a criação, a arte, entre as quais se insere o cinema. Essas são marcas que nos definem desde sempre, desde que as cavernas serviram de tela para os desenhos dos primeiros humanos, exilados nesse “entre”.

Ana Costa é psicanalista, membro da APPOA, professora do PPG em Psicanálise da UERJ, autora dos livros “Corpo e escrita. Relações entre memória e transmissão da experiência”(Relume-Dumará) e “Tatuagem e marcas corporais” (Casa do Psicólogo), entre outros.

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